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Há pouca coisa a se dizer sobre o Vulcano e sua carreira. Trata-se simplesmente de um dos maiores nomes da historia do Metal nacional, um dos pilares desse estilo tão amado por tantos. Nessas quatro décadas, lançaram álbuns clássicos, fizeram shows inesquecíveis aqui e no exterior, e nunca perderam o foco e a humildade, ganhando assim o respeito de todo o público.

Nessa entrevista, o guitarrista Zhema conta mais sobre os primórdios da banda, a carreira e tudo que cerca o Vulcano, demonstrando pique para trilhar ainda mais alguns anos fazendo a música que gosta. Feliz de nós, que podemos assim continuar acompanhando a história ainda sendo escrita…

 

Vicente – Voltando bastante no passado nesse primeiro momento. Como foi o inicio da banda, os primeiros ensaios, e como chegaram ao nome Vulcano?

Zhema – Lá pelo meio dos anos 70 eu morava em Osasco, SP e era um adolescente que tinha dois amigos próximos que tinham uma banda chamada Sangue Azul. Paulo Magrão Guitarrista e Carli Cooper Baixista e eu tinha essa linguagem de “rock band” com eles. Em 1978 me mudei para Santos, SP e algum tempo depois os chamei para montar uma banda com a finalidade de apresentações ao vivo, algo mais comprometido, etc. No início éramos Eu e Paulo Magrão nas guitarras, Carli Cooper no baixo e Wilham “o ponta” na bateria, fizemos alguns shows com essa formação até Wilham deixar a banda. Bem, depois disso veio o “OM PUSHNE NAMAH” e toda a história que a maioria conhece. Com relação ao nome da banda, VULCANO, vou lhe dizer a verdade, se eu for contar essa história aqui e agora vou tomar duas páginas de sua publicação. Eu já detalhei isso em algumas entrevistas e é uma longa história. Por hora posso dizer que é fruto de um estudo sobre “Magic Square of the Sun”, não exatamente o que se encontra na internet atualmente, mas aquele do conceito proposto por Cornelius Agrippa.

 

VicenteHá 35 anos, a banda entrava pela primeira vez num estúdio, lançando o EP “Om Pushne Namah”. Consegue lembrar e descrever a sensação que sentiram com essa primeira gravação?

Zhema – Claro! Uma sensação de total insegurança, onde éramos principiantes, sem qualquer noção da linguagem que ouvíamos lá dentro – canal 2, panorâmica, na linha, input, fita de ½”, Fita de 2”, dobra, +2db, eu pensava, meeuuu o que é isso? Mas eu fiz tudo que me pediram para fazer e deu certo, de certa forma. Um mês depois quando eu estava na sala de meu apartamento com minha esposa colocando o vinil nas capas e senti uma emoção do tipo: – Caramba! Gravei um disco!

Somente bandas “grandes” faziam isso e através da RCA, Polygram, etc.

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VicenteEm 86 veio à luz o inesquecível “Bloody Vengeance”. Como foi gravá-lo e, principalmente, ver a repercussão que até hoje o disco possui?

Zhema – Antes dele teve o “Live!” Que qualifico como tão importante quanto o “Bloddy Vengeance”. Quando o “Live!” foi lançado em 1985 as músicas do “Bloody” já existiam e as executávamos nos shows ao vivo naquela época. Não tínhamos dinheiro para gravações e posso dizer que o “Live!” me custou um Chevette 83 e o “Bloody Vengeance” um Passat 84. Eu não tinha a menor noção sobre como esse álbum iria repercutir naquela época, e sobre o futuro então, nem passava pela minha cabeça.

Gravamos aquele álbum em São Paulo em apenas um final de semana. Meu amplificador DUO VOX 100 foi responsável pelos timbres tanto das guitarras como pelo contrabaixo, alugamos pratos para o baterista, simplesmente não tínhamos nada! Na primeira noite os camaradas do Golpe de Estado, Helcio, Catalau e Paulo Zinner estavam lá nos ajudando no que podiam. Foi divertido. Depois do álbum gravado, o dinheiro do meu Passat havia acabado, não havia mais dinheiro suficiente para a prensagem e capas, foi quando o Antônio “Toninho” Pirani entrou e fizemos uma parceria.

 

VicenteO mais recente lançamento de estúdio da banda foi “XIV”, em 2016. Após esse tempo, como avaliam o resultado obtido com o disco, e como foi todo o processo de composição e gravação do mesmo?

Zhema – Eu coloco esse álbum como um dos 3 melhores de minha carreira ao lado do “Bloody Vengeance” e “Tales from the Black Book”. Eu tenho no meu notebook o que chamo de “uma gaveta” de “riffs”. Durante minhas “brincadeiras” com a guitarra, quando faço um riff interessante eu gravo com meu “Q3 da Zoom” e abaixo e guardo no computador. Depois de um tempo vou ouvir o que tem lá e aquele que me agrada eu desenvolvo para uma música, começo, meio e fim. Depois de um monte de músicas prontas nesse formato, chamo o Arthur e fazemos as divisões e arranjos de bateria, vamos para o estúdio do Ivan Pellicciotti e gravamos os “takes” de bateria. Eu coloco as guitarras e passo aos demais da Banda e cada um faz seu arranjo. Depois de gravado, então escolhemos as que tocaremos ao vivo. Interessante é que escolhemos sempre priorizar as músicas do álbum mais recente para executa-las ao vivo, mas aos poucos vamos retirando do “set list” porque o público sempre demora para interagir com elas.

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Vicente – Esse ano vocês lançaram o álbum ao vivo “Live III – From Headbangers to Headbangers”. Essa foi uma forma de homenagear os fãs do Vulcano?

Zhema – Este lançamento foi interessante, pois não estava planejado fazê-lo. Havia um show agendado pelo Wilton da Heavy Metal Rock para comemorarmos juntos os 34 anos da loja dele. Como não era festival e o VULCANO poderia usar o tempo que fosse necessário no palco, preparamos um repertório extenso e que passasse por toda carreira da banda. Durante esse processo o Wilton jogou a ideia de que poderíamos gravar o show e lançar um novo CD. Eu concordei e disse faremos como 32 anos antes na mesma região “de Headbangers para Headbangers”

 

Vicente – Vocês irão tocar no Setembro Negro. Qual a expectativa para este show em particular? E das bandas que irão se apresentar no Festival, quais são as que realmente curtem, ou tem vontade de conferir o show?

Zhema – Razor, tocamos com eles nos Estados Unidos, e também estou muito interessado em assistir ao Coven. O Enthroned tocaremos com eles em um Festival na Bolivia no mês seguinte. Teremos 50 minutos no palco para mostrar o que temos de bom em uma carreira de 37 anos, é pouco e isso me incomoda, mas não o suficiente para chegar lá com “fogo nos olhos”. Daremos o melhor de nós nesses 50 minutos.

 

VicenteA banda já teve muitas alegrias durante sua trajetória, mas também ocorreram perdas irreparáveis, como o falecimento dos guitarristas Soto Jr e Johnny Hansen. Como foi receber essa notícia?

Zhema – Notícia desse tipo sobre pessoas próximas não é nada bom. É sim um impacto muito forte. O Junior foi embora muito cedo, 39 anos. É pouco! O Hansen também me deixou surpreso porque ele estava trabalhando duro no HARRY e sempre nos encontrávamos em uma padaria aqui perto de casa para conversar, ele não bebia álcool mais e eu tomava minhas cervejas, foi ruim!

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VicenteZhema, você no inicio da banda era o baixista, porém alguns anos depois assumiu a guitarra no Vulcano, Essa mudança foi algo natural para você?

Zhema – Sim! Na verdade, eu sempre toquei guitarra, porém Soto Junior e o Zé Flavio tocavam melhor do que eu então eu ficava no baixo. A partir de 1987 eu fiquei com as guitarras dos próximos álbuns, sendo que no “Tales from the Black Book” novamente haviam guitarristas melhores do que Eu e então fiz os baixos. Daí em diante resolvi ficar para sempre nas guitarras.

 

VicenteVocês já tiveram a oportunidade de tocar em outros países durante a longa carreira da banda. Como foram essas experiências, e qual a principal diferença que percebem no público daqui, com relação ao estrangeiro?

Zhema – O público daqui é dividido em “Headbangers” e “Metalheads” o primeiro abrange o segundo, mas o inverso não acontece. Este tipo de coisa que “lá fora” não existe.

É ótimo fazer shows lá fora, o profissionalismo está presente sempre, tanto faz se o “pub” é para 40 pessoas, ou se é uma casa de shows para milhares de pessoas.

 

Vicente – Com quase quatro décadas de atividade, como você enxerga o futuro do Vulcano? Orgulho pela trajetória da banda, que sempre teve total respeito dos fãs e do cenário metálico em geral?

Zhema – Claro! Tenho muito orgulho da Banda e muito respeito pelo fã, porque fã do VULCANO é como fã de Ópera. É uma relação de proximidade e paixão, como essas que existem como times de futebol e por isso mesmo cercada de muitas opiniões contrárias às deles, mas nosso fã é fã de verdade! Pro futuro? Trabalhar em mais um novo álbum e fazer mais e mais apresentações ao vivo, pois são nelas que conquistamos mais fãs.

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VicenteEm poucas palavras, o que acham das seguintes bandas:

Sarcófago – Lenda consagrada

Exodus – Minha preferida isolada da “bay area”

Rotting Christ – Trinta anos após “Leprosy of Death” continua entre as melhores

Krisiun – O mais conhecido representante do atual Metal Brasileiro nas terras além-mar

Morbid Angel – Não é uma das minhas preferidas atualmente, deferentemente dos tempos de “Altar of Madness”.

 

VicentePor fim, deixem um recado para os fãs da banda e para todos aqueles que querem conhecer mais sobre o Vulcano e apostam no Metal nacional.

Zhema – Primeiro sou grato pela oportunidade desta entrevista contigo porque me permite levar aos leitores algumas informações e ideias por traz da Banda. Aos fãs é desnecessário dizer que são os principais responsáveis por eu estar aqui respondendo essas questões, então convido aqueles que ainda não conhece por inteiro a “estrada” do VULCANO a se situarem em uma “nave do tempo”, pois já se passaram quase 40 anos, e ouçam pouco a pouco nossos álbuns. Comecem pelo último “X I V” e vão regredindo no tempo até 1983 porque assim fazendo compreenderão a História do VULCANO e uma parte da história do Metal Brasileiro.

Keep Banging!!

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