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Todos preparados para o Confronto? Uma frase que está em voga nos dias atuais, de manifestações e insatisfação pelo momento que nosso país vive. Mas, nesse caso, o Confronto no qual devemos nos preparar é para aproveitar o máximo da brutal sonoridade deste quarteto carioca, que luta a 15 anos para criar uma música que “transpira” peso e competência. Para falar desse tempo de banda, do mais recente álbum deles “Imortal”, e sobre tudo que envolve a música e também a política no Brasil, que tive o privilegio de entrevistar o baterista Felipe Ribeiro, que resultou numa conversa franca e informativa sobre a banda, cujo nome não poderia ser mais adequado com relação a seus ideais e sonoridade…

 

Vicente – Antes de tudo, como vocês consideram a trajetória da banda até este momento, já passados quinze anos de sua formação? Como foi o começo de tudo para o Confronto?

 

Felipe Ribeiro: O Confronto é o resultado do encontro de quatro amigos que se juntaram pra fazer um som pesado e com letras que expusessem as nossas indignações e revoltas. E com isso, estamos há 15 anos juntos. E pode acreditar, 15 anos é bastante tempo para uma banda que se mantém com a mesma formação desde o início. Acredito que construímos muitas coisas juntos, chegamos em lugares que pessoas que moram nos lugares de onde viemos nem sonham em chegar. Somos uma banda que crescemos na periferia do Rio de Janeiro e hoje temos o prazer de ter lançado três CDs, que foram lançados no mundo todo, muitas turnês pela Europa, muitas turnês sul-americanas, fazer shows por todo Brasil, ter lançado um DVD, ter feito shows em mais de 24 países diferentes. Isso tudo sendo uma banda independente, que contou única e exclusivamente com nosso próprio trabalho, com apoio das gravadoras independentes, que lançaram nossos álbuns ao redor do mundo e pelo apoio incondicional dos nossos fãs, que vão aos nossos shows e nos acompanham de verdade.

 

Vicente – Vocês lançaram, no ano passado, o disco “Imortal”. Como foi a gravação e a composição deste trabalho?

 

Felipe Ribeiro: Passamos um bom tempo compondo esse disco em Petrópolis, cidade onde fica nosso galpão de ensaio. Queríamos um disco denso, pesado, que pudesse soar com mais groove do que os anteriores, porém mantendo a característica que sempre tivemos no que diz respeito às letras fortes e impactantes. Gravamos o CD no estúdio Superfuzz, aqui mesmo no Rio de Janeiro e, desta vez, além da produção do Davi Baeta, que já trabalha com o Confronto há muitos anos, contamos também com a co-produção do Gabriel Zander, além de mim, que acompanhei todo processo de pré-produção e também de produção do álbum. Fizemos exatamente como gostaríamos de ter feito e chegamos a um resultado que nos agradou absurdamente. Tentamos extrair o máximo de agressividade em timbres de guitarra, peso no som da batera e baixo, e fazer com que os vocais, além de soarem mega agressivos, pudessem de fato ser compreendido por todos, e acho que conseguimos tudo isso!

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Vicente – E o retorno do pessoal, foi o imaginado por vocês?

 

Felipe Ribeiro: Foi sim! Posso te dizer tranquilamente que foi o melhor CD que gravamos e foi aquele que a gente mais curtiu o processo de criação, gravação e mixagem. Queríamos um disco que soasse orgânico, que tivesse o nosso sentimento, pegada e suor transmitidos ali através das musicas. Cara, se tem uma coisa que me incomoda muito e boa parte das gravações de hoje é o fato delas soarem sempre pasteurizadas demais, editadas demais, onde todas as bandas soam com as mesmas sonoridades e tudo parece ter sido tocado por robôs e criado por computadores. Na minha opinião, isso tira o sentimento da música, corta o efeito que ela causa em mim, entende? Me parece frio e sem gosto. Gosto de escutar um CD e sentir a música pulsar, onde você consiga fechar os olhos e imaginar os caras ali tocando, se fudendo pra tirar o melhor som, colocando os demônios pra fora. Se não for assim, seria melhor escutar musica eletrônica. E como eu acho musica eletrônica uma merda…

 

Vicente – As músicas de “Imortal” são, em sua maioria, rápidas e com um peso avassalador, mas com um interlúdio mais calmo na faixa “Rosaly”. Foi intencional colocar essa faixa no meio do álbum, como se fosse uma deixa para o ouvinte respirar um pouco antes do “bicho pegar” novamente?

 

Felipe Ribeiro: A história desta música é interessante. Vila Rosali é um bairro ao lado de onde eu moro. Foi o lugar onde o Chehuan nasceu e foi criado. Como qualquer bairro da periferia do Rio de Janeiro, durante o dia, é abarrotado de gente, muito movimentado, com muita poeira, calor e pessoas desassistidas vagando pelas ruas. Eu já tinha a idéia de colocar uma faixa acústica em “Imortal” e todos na banda acharam a idéia bem legal. E teve um dia, eu passando por esse bairro de madrugada, fui criando a música na minha cabeça, pensando na harmonia, quais notas eu usaria, e louco pra chegar em casa pra poder transpor as idéias para o violão. Por incrível que pareça, consegui fazer a música inteira na cabeça enquanto atravessava o bairro que, diferente de como ele é durante o dia, durante a madrugada a Vila é silenciosa e serena, sem pessoas pelas ruas e com uma paz enorme. Acho que isso é exatamente o significado da música ali no meio do CD, entre o caos dais faixas anteriores e posteriores. Um momento de calma em meio a tanta brutalidade. Cheguei em casa, peguei o violão e transformei o que tinha na mente em notas musicais.

 

Vicente – Vocês tiveram a oportunidade de, em conjunto com o Shadowside, realizar uma entrevista para o jornal francês Le Monde. Como avaliam esse tipo de divulgação, visto o alcance que a publicação referida é mundial?

 

Felipe Ribeiro: Cara, isso é bem legal! Ainda mais quando você consegue através dessa exposição expressar verdades que nem sempre as pessoas dos outros países conseguem ver. Sempre pensamos sob esse ponto de vista e a prova disso é que todos os nossos lançamentos em CD saíram na Europa com tradução para o inglês, para que as pessoas pudessem saber sobre o que falamos. Além do Le Monde, já concedemos entrevistas para jornais suecos, noruegueses, alemães, e nós achamos isso importantíssimo! Ficamos felizes também pelo fato desses veículos se interessarem por aquilo que pensamos e dizemos. Isso é sinal de que a nossa voz está chegando cada vez mais longe, estamos fazendo cada vez mais barulho e o mundo está de olho no que estamos produzindo!

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Vicente – Vocês já tiveram a oportunidade de tocar com grandes bandas do cenário, como Napalm Death, Testament, Sickof it All, The Haunted, Voivod, Madball entre tantas outras. Como foi essa experiência para vocês?

 

Felipe Ribeiro: São coisas que acontecem e que fazem a gente refletir bastante sobre nossas raízes e onde estamos chegando. O que antes era um sonho distante, hoje se tornou algo cotidiano e damos muito valor a isso. Hoje dividimos o palco com bandas como Krisiun, Sepultura, Ratos de Porão, bandas que somos fãs e hoje temos uma relação próxima de amizade (O Gordo canta a musica ‘1 hora’ no CD ‘Imortal”). Assim como as bandas internacionais, além destas que você citou, como At The Gates, Brujeria, Municipal Waste, Agnostic Front, Misery Index, Origin, Heaven ShallBurn, Terror, WallsofJericoh, entre outras… É uma satisfação muito grande!

 

Vicente – A banda já possui uma vasta experiência com turnês internacionais. Quais seriam as melhores e piores lembranças destes shows, e qual acredita ser a maior diferença entre tocar lá fora e aqui no Brasil?

 

Felipe Ribeiro: Acho que as diferenças são meramente estruturais, saca? Pecamos na qualidade técnica, na produção, no cuidado com os detalhes pra ter um show realmente bem organizado e estruturado que garanta tranqüilidade, diversão, qualidade e segurança pra todos. Acho que esses fatores são os que mais pesam. Porque o publico aqui pode ser mais insano, porém lá a galera também é absurda e piram nos shows. Tocamos em grandes festivais europeus, shows de clube, e todos são sempre muito legais! Fizemos turnês extensas de 3 meses na estrada com shows todos os dias… São coisas que funcionam somente na Europa. Mas no Brasil também tem muito shows bons, festivais em vários estados, não podemos reclamar, pois sempre estivemos presentes em boa parte do Brasil com shows legais e bem estruturados.

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Vicente – Atualmente fala-se muito dos problemas do cenário nacional quanto ao Rock e Metal. Vocês consideram que a cena nacional realmente piorou, ou tudo é uma questão de ponto de vista, de fazer um trabalho sério e o mais profissional possível?

 

Felipe Ribeiro: Olha, sinceramente, pra mim quem fala mal do cenário musical, do Rock, do metal independente, é porque não está correndo atrás e quer ver as coisas acontecerem sozinhas. Gente que quer apenas se aproveitar daquilo que as bandas, produtores e mídia especializada demoraram anos pra construir com muito esforço e trabalho. Acredito que nunca esteve tão bom para as bandas, para o publico, para os produtores. Talvez estejamos longe da perfeição, mas com certeza estamos infinitamente mais próximos das grandes estruturas européias e americanas do que já fomos um dia. Nós nos espelhamos em bandas que fazem as coisas acontecerem como Krisiun, Matanza, Ratos de Porão, DeadFish, Sepultura.  E quem quiser ficar chorando, que fique, porque o caminho é construído por aqueles que trabalham e não por quem fica reclamando, choramingando e fazendo peso.

 

Vicente – Saindo um pouco do campo da música e entrando na política, visto que é um terreno bastante visitado pela banda em suas letras. Como vocês vêem o atual momento do Brasil?

 

Felipe Ribeiro: Sinceramente não podemos dizer que o Brasil hoje seja um país desenvolvido e com amplas condições de igualdade para todos. Temos altos níveis de corrupção, péssima qualidade no ensino público, sistema de saúde pública ineficiente, nível alarmante de pobreza e subdesenvolvimento. Mas por incrível que pareça, acho que ainda sim melhoramos absurdamente perto do que éramos há 10, 15, 20 anos atrás. Porém, acho que o crescimento econômico não representou um crescimento na qualidade de vida para a população e isso ficou explícito com todos esses grandes eventos como Copa do Mundo e as Olimpíadas acontecendo por aqui, onde bilhões estão sendo gastos e desviados, e essas cifras não são utilizadas para questões de prioridades básicas. Daí o povo se sente agredido, tripudiado… Esses eventos foram como um tapa na cara de um povo que já se sente explorado todos os dias e com isso veio essa explosão de manifestações, reivindicações, protestos e mobilizações. E isso tem sido muito bom, porque hoje em dia vejo as pessoas discutindo política, participando de ações, cobrando e se preciso for, partindo pra cima do estado. Movimentos tomaram grandes dimensões, ações diretas como a tática BlacBlock ganharam força, grupos de debate fora se formando e a população, a sua maneira, foi se mostrando indignada e participativa. Acho tudo isso muito importante e muito válido! A única coisa que não podemos deixar acontecer é retroceder, dar de bandeja o poder político para as mãos dos mesmos grupos políticos e ideológicos que governaram o país há décadas atrás. Agora e momento de evoluir e não retroceder mesmo que isso signifique ter que usar a força pra resistir.

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Vicente – Em poucas palavras, o que acha das seguintes bandas:

 

Agnostic Front: Uma das primeiras bandas que misturou hardcore com metal. Junção perfeita entre thrash metal, hardcore e groove!

 

Ratos de Porão: Ídolos que hoje se tornaram amigos pessoais. Nada mais, nada a menos que a melhor banda crossover do mundo!!!!

 

Nuclear Assault: Falar de thrash metal BayArea é falar de Nuclear Assault. O álbum “Game Over” foi um dos que mais escutamos na vida!

 

Torture Squad: São um dos heróis do metal nacional! Técnico, agressivos e virtuosos na medida certa! “Pandemonium” é um clássico do metal brasileiro e o novo álbum deles está entre os melhores CDs já lançados no Brasil, extremamente politizado e brutal!

 

Napalm Death: Sujo, podre, grotesco, brutal e politizado!! Os mestres do barulho bem feito! Perfeito!!!!

 

Vicente – Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho da banda Confronto e apostam no Metal nacional.

 

Felipe Ribeiro: Em primeiro lugar gostaria de agradecer pela entrevista… É sempre bom bater esse papo e são espaços como esse que fazem as coisas crescerem cada vez mais pra todos, que curtem música pesada no Brasil. Gostaríamos de agradecer demais a todos os fãs do Confronto que vem acompanhando a banda no decorrer desses anos. Estamos ai, firmes, fortes, trabalhando firme, sempre prontos pra guerra em nome da música independente. Todos nós juntos #SomosARevolução

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