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Determinação, profissionalismo e, obviamente, muito talento musical. Isso é o que leva uma banda a se sobressair as demais, o que a faz saltar do anonimato para o reconhecimento do público. O que parece simples, mas que poucas bandas nacionais nos dias de hoje tem conseguido, visto a feroz concorrência, principalmente com relação as bandas internacionais. Uma tarefa difícil, mas não impossível, como a Shadowside tem demonstrado nos últimos anos. 3 ótimos discos, turnês de sucesso no Brasil e lá fora, consolidando seu nome como uma das principais bandas do país. Nessa entrevista a vocalista Dani Nolden fala mais sobre essa batalha, a carreira da banda, curiosidades sobre a vida na estrada e o que o futuro nos trará dessa banda, que em apenas uma década, já marcou seu nome no cenário nacional…

 

 

Vicente – Após pouco mais de uma década e três discos lançados, como você vê a trajetória do Shadowside nos dias de hoje? Como foi o começo de tudo para a banda?

 

Dani Nolden: O começo foi recheado de sonhos, mas com poucos planos reais para o futuro, porque ninguém naquela época, nem mesmo nós, pensávamos que os sonhos poderiam se tornar realidade um dia. Eles pareciam tão distantes… no início, o sonho de gravar um álbum parecia impossível, mas ele se realizou. Depois, o sonho de tocar com grandes artistas que haviam nos influenciado parecia muito distante, mas ele acabou acontecendo também. E então sonhamos em fazer shows internacionais… depois turnês internacionais… e o que parecia maluquice de adolescente acabou se tornando nossas vidas. A trajetória do Shadowside é basicamente essa… uma mistura de loucura e dedicação suficientes pra dar uma chance aos nossos sonhos impossíveis!

 

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Vicente – Seu último disco é o aclamado “Inner Monster Out”, lançado em 2011. Após esse tempo, como avaliam este álbum. Como se deu todo o processo de gravação e composição do mesmo?

 

Dani Nolden: Nós trabalhamos no álbum como uma banda, pela primeira vez. Todo o processo no passado foi meio individual, cada um fazia suas ideias e por falta de tempo ou comunicação, acabávamos não trabalhando muito no material como uma banda, com todo mundo dando ideias, modificando as demos, dando realmente a cara do grupo para as músicas. Porém, decidimos que seria diferente dessa vez, o que tornou o processo muito mais divertido, agradável e leve pra todo mundo, porque a responsabilidade não ficou nas costas de uma ou duas pessoas, e todo mundo teve a chance de participar da criação. O fato de decidirmos que não pararíamos de trabalhar nas músicas enquanto todos não estivessem satisfeitos e que faríamos apenas o que gostamos, fez uma enorme diferença no resultado final. Para a gravação, nos trancamos durante três semanas em um estúdio em Gotemburgo, Suécia. Literalmente moramos dentro do estúdio durante esse tempo, o que nos permitiu ter foco completo na gravação. Uma gravação nossa nunca fluiu tão bem quanto à gravação do Inner Monster Out.

 

Vicente – E um novo álbum em breve? Creio que todos os fãs da banda estão ansiosos por um novo petardo do Shadowside.

 

Dani Nolden: Estamos planejando! Já temos boas idéias e trabalharemos nelas ao longo do ano, enquanto fazemos os últimos shows do ciclo do Inner Monster Out. Acredito que entraremos em estúdio para gravar no início do ano que vem.

 

Vicente – A Shadowside foi uma das bandas responsáveis por desmitificar aquela ideia de que um grupo com uma vocalista bonita normalmente já era taxado como uma banda de Gothic Metal, como existiam as centenas no inicio do século. E, ao fugir desse lugar comum, abriram portas para muitas bandas de Power/Heavy Metal que surgiram em nosso país nos últimos anos. Acreditam que hoje em dia o público está mais “mente aberta” do que alguns anos atrás?

 

Dani Nolden: Eu não diria “mente aberta”, porque acho que o público sempre teve a mente aberta, mas certamente hoje as pessoas não esperam necessariamente uma banda de Gothic Metal ao ver uma mulher na banda, então acho que não existe mais o conceito formado de que uma mulher faz apenas Gothic Metal… uma mulher faz Gothic Metal, mas também faz Power, Thrash, Death, Hard Rock e tudo mais que existe dentro do Rock e do Heavy Metal. Sempre foi assim, mas hoje existem representantes em maior número que deixam isso mais claro. As mulheres passaram a se interessar e acreditar mais, então não existe mais uma associação de um estilo específico ao universo feminino.

 

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Vicente – Vocês sempre fizeram um trabalho extremamente profissional em todos os sentidos. Esta é a proposta do Shadowside desde o principio?

 

Dani Nolden: A proposta sempre foi fazer o melhor possível… e observar os erros para não cometê-los de novo. Isso incluiu analisar a carreira de outras bandas para prestar atenção ao que eles faziam que funcionava e o que eles faziam que atrasava a vida deles. Então sempre procuramos fazer o melhor que tínhamos a oferecer, o que no início nos causou alguns problemas, porque as pessoas não entendem quando você sabe que não precisa fazer coisas de qualquer jeito pra iniciar a sua escalada. Eu defendo fortemente que uma banda precisa buscar o profissionalismo desde o início, saber seus direitos e deveres, saber como chamar a atenção do público e o que significa respeitar os fãs e outras bandas. Se confunde respeito com outras bandas, com prejudicar o seu próprio trabalho ou evitar cometer erros. Respeito com outras bandas, para mim, é combinar as coisas antecipadamente e respeitar o combinado. Se você não quis combinar coisa alguma e depois você quer chegar na hora do show e exigir um mundo de coisas, você não está respeitando quem está se preparando para aquele evento há meses. E isso sempre foi algo que fizemos questão de fazer desde o começo… se aceitamos uma condição, vamos honrá-la.

 

Vicente – Ser considerada uma das melhores bandas surgidas nos últimos anos no Brasil é uma honra, mas ao mesmo tempo traz uma grande responsabilidade. Como lidar com isso, e ainda continuar progredindo?

 

Dani Nolden: Com gratidão, porém pensando que sempre há espaço para melhorar algo. Quando você acredita que chegou a seu auge, você para de se esforçar, para de buscar a evolução. E nós não acreditamos que chegamos ao auge… na verdade, não sei se o auge existe de verdade. Pode existir um ponto na carreira de uma banda quando ela vai estar no auge da fama, mas no auge do que ela é capaz de criar e fazer… acho que não existe. Talvez um dia, quando estivermos bem mais velhos, o corpo não aguente mais fazer o mesmo show que fazemos hoje, mas então o desafio se torna compor algo tão interessante que compense isso. Eu acho que esse é o segredo… sempre termos desafios para nós mesmos e não descansar enquanto não conseguirmos superá-los. O desafio agora é compor algo melhor que o Inner Monster Out e não simplesmente curtir o sucesso dele até não podermos mais. Não podemos fazer algo do mesmo nível, temos que fazer alguma coisa mais interessante. Nunca podemos estar satisfeitos com o que fizemos para que seja possível encontrar coisas ainda melhores. Chega um momento que isso fica difícil, mas realmente não é impossível. Sempre é possível tocar melhor, cantar melhor e compor melhor, por melhor que você seja… você sempre pode superar a si mesmo. Essa é o nosso ideal… competir apenas conosco e nunca com outras bandas.

 

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Vicente – A Shadowside tem feito turnês exitosas no exterior nestes últimos tempos, um desejo de toda banda, mas que poucas conseguem alcançar. Como foram essas experiências para vocês?

 

Dani Nolden: É a sensação de um sonho realizado, ao mesmo tempo que temos consciência de que isso significa trabalhar ainda mais e lutar ainda mais para continuarmos na estrada. Quanto mais crescemos, maiores se tornam as responsabilidades, as demandas, então é claro que vivemos coisas incríveis como os grandes públicos, os lugares que conhecemos e que nunca imaginávamos que visitaríamos, porém nada vem fácil e definitivamente não permanece fácil. Sentimos-nos honrados de estarmos nesse momento, sendo uma das bandas representantes do Brasil lá fora e fazendo shows bem legais tanto aqui no Brasil, quanto no exterior.

 

Vicente – A vida na estrada sempre traz alguns momentos mais alegres e outros mais constrangedores. Qual teria sido o melhor e o pior momento em turnê?

 

Dani Nolden: O pior momento sem dúvida foi em 2010, quando nosso tourbus quebrou e nos vimos em uma situação extremamente delicada no meio da turnê. Quando você é escolhida como banda de abertura de uma grande banda como o WASP, que foi o caso em 2010 na Europa, você tem certas responsabilidades… e uma delas é estar lá em todos os shows, obviamente. Não há sentido para a banda principal escolher uma banda de abertura que não pode estar lá fazendo o seu papel: agitando o público e o deixando pronto para o show principal. Então quando isso aconteceu, conversamos com o tour manager do WASP, que não gostou nem um pouco da situação e basicamente tivemos que escolher entre dar um jeito ou voltar pra casa. Na verdade, voltar pra casa passou a ser uma grande possibilidade durante todo o restante da turnê, porque todo o dinheiro que tínhamos foi no conserto do ônibus e no aluguel de um carro para continuarmos a turnê. Enquanto nosso manager ficou pra trás, esperando o ônibus ficar pronto, a banda seguiu viagem de carro. Nosso baterista dirigia após o show e ficávamos exaustos porque não dava tempo de dormir em lugar nenhum. No ônibus, temos nossas camas com as cortinas e podemos dormir tranquilamente durante a viagem, porém isso não é possível em um carro… mas tínhamos que cumprir os compromissos. Para completar tudo isso, fomos assaltados na Espanha e levaram tudo que nos restava, que era o dinheiro da nossa alimentação. Tudo isso nos deixou sem qualquer reserva financeira e passamos a contar com o dinheiro das vendas de CDs e merchandise de um show para levantar recursos para comer e chegar ao show seguinte. Se em um dia não vendêssemos o suficiente, teríamos que voltar pra casa. Felizmente o público gostou bastante da banda e vendemos o suficiente para bancar toda a turnê e ainda voltar com alguma coisa pra casa. Mas ficamos tensos durante a turnê inteira, pois não sabíamos se aquele seria o último show ou não. Essa foi a pior experiência que tivemos na estrada, sem dúvida alguma. Porém a melhor acontece todos os dias, especialmente quando a banda está vivendo uma situação complicada como essas… o carinho do público, a galera gritando o nome da sua banda ou cantando as suas músicas. Isso faz tudo valer a pena.

 

Vicente – Ao se apresentar lá fora, qual foi a principal diferença que percebeu no cenário musical em outros países para o sempre complicado cenário nacional?

 

Dani Nolden: O que eu percebo é que lá acontecem shows de domingo a domingo. Ninguém se importa de ir a um show na segunda-feira, porque já é algo comum, eles sabem que o artista fica em turnê durante um período e precisa aproveitar o caminho, a rota da viagem. Aqui no Brasil ainda é difícil fazer isso, e parte disso é pelo custo alto de se viajar dentro do país. A estrutura de lá também ainda é bem melhor, apesar de existir já há algum tempo todo o equipamento disponível aqui no Brasil também, mas lá se compreende a necessidade de se fazer eventos com som excelente, com condições para que o músico apresente seu melhor e que o público aproveite um espetáculo que envolve não apenas a audição, mas também a visão com iluminação de primeira, que realmente vale o ingresso que ele pagou. Pouco a pouco isso está mudando no Brasil. Já fizemos alguns eventos bem legais aqui no Brasil e em lugares que sofrem muito preconceito, como em Paulo Afonso, na Bahia, onde o organizador fez um evento incrível mesmo em um local pequeno e afastado, ou em Belo Horizonte, onde tivemos toda a estrutura necessária. As coisas aqui estão começando a mudar porque os organizadores de shows também estão se profissionalizando e querem ver a cena crescer. Estou bem contente com as mudanças que estão acontecendo e acho que logo não precisaremos mais comparar o Brasil com a Europa, pois tudo será igual com relação aos eventos.

 

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Vicente – E os planos futuros da banda? Como está a agenda de shows da Shadowside?

 

Dani Nolden: Faremos mais alguns shows antes de encerrar a turnê promocional do “Inner Monster Out”, acredito que ainda acontecerá mais alguma coisa no Brasil e temos um importante show nos Estados Unidos, em Setembro.

 

Vicente – Dani Nolden, em poucas palavras, o que acha das seguintes bandas:

 

Judas Priest: Uma das minhas bandas favoritas. Foi uma das primeiras bandas de Metal que ouvi e gostei.

 

Helloween: Uma grande influência no início da minha carreira. Hoje não é um estilo que escuto com frequência, mas sem dúvida ajudou a moldar minha formação musical.

 

Saxon: Não é uma banda que eu escuto muito. Gosto de algumas músicas, respeito a importância deles para o metal, mas não me considero fã.

 

Iron Maiden: O primeiro cover que cantei foi de Iron Maiden, como muita gente começando… foi Fear of the Dark, quando eu tinha 14 anos. Soou simplesmente horrível, é claro (risos). Abrimos para eles no Rio de Janeiro, em 2011, e foi um dos momentos mais especiais da minha vida.

 

Angra: Uma das bandas que eu tive como referência desde o início da minha carreira. Eles não me influenciaram muito musicalmente, mas sempre tive respeito pela banda e sempre os vi como referência de qualidade no Brasil.

 

Vicente – Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho do Shadowside e para aqueles que gostariam de conhecer melhor seu som e apostam no Metal nacional.

 

Dani Nolden: Muito obrigada a todos que nos apoiaram durante todos esses anos, a todos que estão lendo e ficaram curiosos para escutar a banda – espero que gostem! – e muito obrigada também pelo espaço. Vejo todos vocês na estrada em breve!

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