Psychotic Eyes 2012 2

A cena metálica, tanto a nacional quanto a internacional, produz centenas de bandas semelhantes umas as outras, sem nada que produza aquele sentimento de que algo diferente ou especial esteja acontecendo. São simples clones que ficam eternamente a sombra das bandas mais clássicas. Mas de vez em quando surgem bandas que quebram de alguma forma essa barreira, e uma delas é o Psychotic Eyes. Com o lançamento do aclamado segundo disco, “I Only Smile Behind the Mask”, a banda mostrou que o metal extremo não precisa ser simplesmente velocidade ou peso absurdo, mas pode sim ser algo mais técnico, com as mais variadas influências, sem nunca deixar de ser brutal. E é sobre isso que fala nessa entrevista o vocalista/guitarrista Dimitri Brandi, que demonstra uma percepção de sua música e do próprio cenário acima do normal. Confiram a seguir…  

 

Vicente – Inicialmente, em resumo qual a avaliação que você faz destes quatorze anos de trajetória da banda? Como foi o inicio de tudo e a razão da escolha do nome Psychotic Eyes?

Dimitri Brandi – Saudações! A história da banda teve de tudo, momentos de “sucesso” (risos), como o reconhecimento por parte de fãs e imprensa, principalmente depois do lançamento do “I Only Smile Behind the Mask”, shows excelentes, oportunidades de tocar com músicos que admiramos, como Frank Godzik do Kreator, os caras do Dr. Sin, Torture Squad, Drowned, Vulcano, Oligarquia, Desdominus, Zênite e outras bandas maravilhosas da cena brasileira. Mas também vivemos muita coisa difícil. O pior momento foi quando eu e o Alexandre (Tamarossi, baterista) descobrimos problemas físicos que nos atrapalharam de tocar. Eu tenho tendinite e ele tem bursite. Tivemos que reinventar nossa maneira de tocar por causa disso, mas nunca pensamos em desistir. Ah, o nome da banda veio da “Dead Skin Mask”, do Slayer, um dos primeiros covers que nós tiramos quando ainda estávamos nos primeiros ensaios.

Capa_I Only Smile Behind The MaskVicente – A banda conseguiu uma grande repercussão de seu segundo disco, “I Only Smile Behind the Mask”. Como foi a gravação e composição do mesmo?

Dimitri Brandi – Algumas músicas surgiram em ensaios, outras foram compostas de forma mais trabalhosa, com os arranjos sendo pensados na partitura. Mesmo o que criamos de improviso é transcrito. Eu e o Alexandre fomos moldando os arranjos, conversando pela internet, pois na época eu estava morando em Campinas e ele em Guarulhos. No meio da gravação ficamos sem baixista, então os arranjos de baixo tiveram que surgir meio que improvisados, no susto, por obra do Rodrigo Nunes (ex-Drowned, Eminence e Preceptor), grande amigo e músico lá de Belo Horizonte, que topou o desafio e nos salvou, pois tínhamos prazo para gravar tudo a tempo do Jean François Dagenais (guitarrista do Kataklysm e produtor do álbum) fazer a mixagem e a masterização no cronograma que ele tinha nos passado. Lá fora tudo é muito profissional, então tivemos que trabalhar com um calendário apertado, ele tinha uma semana pra trabalhar no nosso disco, com datas marcadas e rigorosas.

Vicente – E o retorno do pessoal, foi o esperado pela banda, ou superou as expectativas?

Dimitri Brandi – Superou e muito! Foi fantástico, não imaginávamos isso! O disco foi mencionado por todos os sites e revistas como um dos melhores do ano, a maioria esmagadora das críticas foi extremamente positiva, e eu cheguei a ser indicado como um dos melhores guitarristas brasileiros na votação da Roadie Crew, algo que jamais eu poderia esperar. Pena que o Alexandre não apareceu nessa votação, ele é um dos melhores bateristas do Brasil, muito mais músico do que eu (risos).

Vicente – O disco tem grandes momentos, como “Throwing Into Chaos” e a faixa-título, mas a surpresa fica com a faixaDimitri Brandi_ThePit1 “life”, um contraste com o restante do disco. Houve algum receio da banda em gravar uma “quase balada”?

Dimitri Brandi – Receio não houve. Nunca tivemos medo de chocar nem preocupação com o que iriam dizer, se os mais radicais iriam ou não torcer o nariz. Mas eu sabia que era um ato de coragem para uma banda de Death Metal gravar uma balada cuja letra fala de amor. Até hoje muita gente simplesmente não acredita nisso, acha que estamos brincando quando eu anuncio isso nos shows. Mas o metal nunca teve preocupações desse tipo, o artista tem que ser livre pra se expressar e botar seus sentimentos na música. Até porque o metal é o único estilo de música completo, que consegue passar todos os sentimentos humanos, desde os mais negativos e agressivos até a melancolia, a felicidade e o amor. Quem nunca se emocionou com uma balada? E a “Life” não é nem um pouco comercial, fala de amor, mas aborda o pior lado desse sentimento, que é perda e o vazio causados pelo rompimento de um relacionamento.

Vicente – “Dying Grief” é uma faixa muito forte e pessoal para você. Como foi gravar essa música?

Dimitri Brandi – Foi muito pessoal, mas foi necessário e útil. Não houve emoção mais forte na minha vida do que a que experimentei quando meu pai morreu. A morte é um assunto recorrente no metal, principalmente no metal extremo, mas geralmente é tratada de uma forma caricata, em contos de terror, guerra, assassinatos e coisas assim. Poucas são as bandas que abordaram em letras o sentimento concreto que a morte nos causa. Quando eu compus os riffs meu pai ainda estava vivo, e eu não tinha ideia de qual seria o assunto da música. Um dia eu estava na casa dele tocando violão e toquei a melodia do solo e ele gostou muito. Depois que ele morreu, quando eu estava gravando o disco, lembrei desse dia e desse momento, e isso me marcou muito. A melodia da voz já estava pronta, mas faltavam as palavras. Foi fácil de escrever, pois a letra veio quase que instintivamente, como se fosse algo preso dentro de mim que estava precisando ser posto pra fora. Foi fácil de escrever, mas muito difícil de cantar, devido às emoções envolvidas. Mas valeu muito à pena, vários fãs que passaram por experiências de perda de alguém importante mencionaram que a letra de alguma forma os ajudou a compreender esse paradoxo absurdo que é a morte. Isso me emociona muito, saber que minha música tem a capacidade de ajudar alguém a superar o sofrimento.

Psychotic Eyes 4Vicente – Um dos pontos altos do disco são as letras, bem acima da média. Como surgiu essa preocupação, que nem sempre acompanha as bandas do estilo, voltadas mais para a violência sonora do que com o conteúdo e qualidade das letras?

Dimitri Brandi – Deixa eu te confessar uma coisa: no começo da banda eu também não estava nem aí pras letras. A voz pra mim era só mais um instrumento, a letra não tinha tanta importância quanto os riffs, bases e solos. Mais tarde é que percebi como há excelentes letristas no rock e no metal, verdadeiros poetas que escreveram obras primas da literatura na forma de letras de música. Foi mais ou menos na época da gravação do nosso primeiro disco que comecei a colocar mais emoção e trabalho nas letras. Mas ainda eram letras que falavam do mundo exterior, guerras, crimes, roteiros de filmes. As minhas primeiras letras realmente emotivas foram as baseadas em filmes e livros, “The Hand of Fate”, do filme “Sinais” e “Bloody Years Forever”, do livro “Frankenstein”. Com essas duas pela primeira vez eu pensei em transmitir emoções, me colocando no lugar dos personagens. Depois disso resolvi deixar de lado os temas usuais do metal extremo e me concentrar no mundo interior. Que as letras poderiam até contar histórias, mas deveriam abordar o que se passa dentro dos personagens, seus sofrimentos, dilemas, paradoxos, angústias. Isso torna o texto mais interessante, a música fica mais forte. Também é o tipo de letra que eu gosto numa banda, é o tipo de composição de letristas geniais como Paul McCartney, Neal Peart, Geoff Tate, Dave Mustaine, Blaze Bailey, Chuck Schuldiner e Warrel Dane, os que considero os melhores letristas de todos os tempos.

Vicente – Vocês disponibilizaram o disco completo para download. A que se deve essa atitude? Acredita que essa “nova realidade” mais prejudica ou traz benefícios às bandas que lutam por seu espaço?

Dimitri Brandi – Eu acho que beneficia, pois retira poder das gravadoras. Hoje o fã pode fazer contato direto com o músico, sem intermediação da indústria, que no fundo era somente um grande conglomerado capitalista interessado em lucro e não na arte. Mas o download tem um lado ruim que também tem a ver com a sociedade moderna, pois ele facilita o consumismo e o individualismo. Ouvir música está deixando de ser um acontecimento social, que as pessoas faziam entre amigos, ou em shows com outros fãs. A música hoje é um produto de consumo solitário, ouvida em mp3 com fones de ouvido, sem interação ou troca com outras pessoas. E o download facilita isso, pois você pode baixar discografias inteiras sem nenhuma forma de interação real com outro ser humano. Resolvemos disponibilizar o disco para download gratuito porque cansamos de apanhar na cena underground brasileira. Prensar um disco é muito caro, e distribuí-lo é pior ainda. Cansei de mendigar com lojista para que ele aceitasse vender o nosso disco. E, no final das contas, a música não chegava aos fãs. Com o download gratuito o que importa mais é atendido: que é o fato de as pessoas ouvirem a música do Psychotic Eyes.

Vicente – Mas vocês colocaram a venda em sites importantes como Amazon e iTunes. Muito se fala que os fãs de Metal ainda são os mais fiéis, adquirindo material de suas bandas preferidas. Você também pensa desta maneira? Acredita que o futuro da música será esse, um universo cada vez menos “físico” e mais “virtual’? 

Dimitri Brandi – Além do download gratuito, disponibilizamos também o download pago. Muitas pessoas conhecem música hoje exclusivamente pelo iTunes, então é importante estar também lá. É uma forma de dizer aos nossos fãs: “paguem se quiserem, paguem o quanto quiserem”. Creio que é a forma como a música será distribuída no futuro. Hoje poucos pagam por música, pouca gente ainda compra CDs. Ouvi que o vinil vende mais que o CD hoje em dia, pois o disco de vinil é um item de coleção, não meramente um suporte físico para o arquivo de áudio. Não sei se os fãs de metal são mais fiéis, acho que somos mais atenciosos, colocamos a música como um dos aspectos centrais da nossa vida. Mas isso não tem nada de fé ou de fidelidade. Pelo contrário, o fã de metal é rigoroso com seus artistas preferidos, lance um “Load” e jamais serás perdoado (risos)!

Vicente – E quando poderemos esperar um novo lançamento do Psychotic Eyes, acredito que os fãs estejam ansiosos porPsychotic Eyes 2012 mais um petardo da banda.

Dimitri Brandi – Estamos trabalhando no nosso terceiro álbum, que será lançado ano que vem. As composições seguem o estilo do último álbum, mas desta vez levadas às últimas consequências. Se no “I Only Smile Behind the Mask” tivemos muita experimentação com riffs baseados em jazz, MPB e hard rock, desta vez estamos explorando estilos musicais totalmente inusitados, como samba e salsa, ou mesmo desconhecidos do público de metal, como música indiana, flamenca, fado português. São mais inspirações do que realmente misturas, da mesma forma como fizemos no álbum anterior, que não tem “banquinho e violão”, mas tem algumas harmonias de bossa nova. Então os fãs podem ficar despreocupados, quando falo de influência de samba é na construção dos ritmos dos riffs ou da bateria, não vai ter cavaquinho no álbum! E, pela primeira vez, estamos trabalhando em uma faixa em português, cuja letra foi escrita pelo genial poeta Luiz Carlos Barata, em homenagem à banda.

Vicente – E quais são os principais objetivos daqui para frente? Como está a agenda de shows?

Dimitri Brandi – O principal projeto atualmente é gravar o disco novo. Não temos feito muitos shows. Provavelmente vamos tocar com o Zênite e o Metalizer no final do ano ou no começo do ano que vem, pois essas duas bandas lançaram os melhores álbuns de 2013, e são grandes amigos que estão insistindo para tocarmos juntos, o que será uma grande honra.

Vicente – Em poucas palavras, o que pensa sobre as seguintes bandas:

Death: Chuck Schuldiner é o maior músico do século XX. Só não foi reconhecido como tal porque tocava metal extremo. É o melhor compositor que o metal já teve, foi um guitarrista genial e um letrista inigualável. Lançou o melhor disco de todos os tempos, na minha opinião, que é o “Symbolic”. Não há uma nota nesse disco que não seja genial.

Paradise Lost: A banda que me fez gostar de vocais guturais. Nunca lançaram um disco ruim, mesmo tendo transitado entre vários estilos. Dificilmente fizeram dois álbuns no mesmo estilo, mas todos têm uma característica forte: te emocionam.

Kreator: Uma das maiores bandas da história do thrash metal e uma das maiores influências do Psychotic Eyes. Poucas bandas têm um casamento tão perfeito entre um guitarrista e um baterista, e o Kreator com Mille Petrozza e Ventor pode se orgulhar de ser uma das maiores de todas!

Morbid Angel: A banda mais original do Death Metal. Trey Azagtoth e Pete Sandoval reinventaram seus instrumentos, somos muito gratos ao que esses caras criaram. Poucas bandas tem uma discografia tão consistente, em que o número de clássicos é tão grande que não cabe numa coletânea ou no set list de um único show.

Rush: A melhor banda que já existiu. Os melhores músicos que jamais tocaram juntos. O melhor baterista e letrista de todos os tempos. O melhor show que já vi na minha vida. Todos no Psychotic Eyes somos fãs incondicionais desses caras.

Vicente – Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho da banda Psychotic Eyes e para aqueles que gostariam de conhecer melhor seu som e apostam na música nacional.

Dimitri Brandi – Minha mensagem é uma só: muito obrigado! Ouça nosso som, baixe nosso disco, valeu mesmo pelo apoio e por acreditarem no metal brasileiro, uma das melhores cenas do mundo, mas ainda muito desvalorizada por nós mesmos.

Psychotic Eyes Official