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Vida de músico nunca foi, é ou será fácil em nosso país. E quando não tem um bom suporte de uma gravadora ou afim, a tarefa torna-se praticamente hérculea. Mesmo assim, continuam a surgir, de todos os cantos do país, novos grupos e artistas a batalhar seu lugar ao sol, dentre eles os mineiros do Onnirica. Apesar de, nas próprias palavras dos membros, tratar-se no momento de um projeto, a verdade é que o EP “The End” é um ótimo cartão de visitas para uma carreira sólida. Aqui o guitarrista Leles Gomes fala mais sobre a carreira e os detalhes da gravação e composição de “The End.

Vicente – Antes de tudo, conte-nos como surgiu o Onnírica, como foi o começo de tudo?

Leles Gomes – Olá! Sou Leles Gomes (guitarra). Primeiramente gostaria de agradecer pela abertura do espaço e pelo interesse pelo trabalho. Bem, o começo foi algo meio sem perspectivas, além da diversão. Tudo começou com o convite que um amigo (Sairon Busatto) me fez para tocarmos juntos em uma feira de cultura da escola que estudávamos. Isso em 2001. A ideia era tocar apenas covers de bandas que gostávamos como Iron Maiden, Helloween, Metallica, Demons & Wizards. Estávamos começando a tocar e éramos muito ruins; nem equipamento nós tínhamos (risos). Com o tempo fomos evoluindo, ganhamos a parceria do nosso amigo Rodrigo Muniz (baixo) e passamos a trabalhar com músicas próprias. Aos poucos aquela brincadeira foi se tornando algo mais sério e começamos a achar que poderia dar futuro. Ocorreu a saída do Sairon, mas que foi substituído pelo Tiago Márcio (guitarra), outro cara sensacional e que também abraçou a causa e se tornou um grande amigo. De lá para cá, foi um longo processo de composição, inúmeros testes com músicos de BH, entrada e saída de integrantes e as dificuldades encontradas no metal autoral nacional. O resultado é um grande número de músicas próprias e bem elaboradas e uma formação ainda instável e que acabou transformando a banda em um projeto.

Vicente – Inicialmente o nome da banda era Dragon’s Breath. Qual o principal motivo para a mudança do nome e como chegaram a Onnirica?

Leles Gomes – Na época da escolha do nome jogávamos RPG e muito videogame. O nome foi inspirado no jogo Breath of Fire e essa ideia de falar de temas medievais parecia novidade para nós. A internet ainda não era lá uma maravilha e não tínhamos conhecimento de que aquilo na verdade já era algo até clichê. Aos poucos fomos conhecendo bandas como Blind Guardian e Rhapsody e vimos que a ideia não era tão original assim (risos). Somamos isso ao fato de que o nome era um tanto difícil de pronunciar e preferimos procurar algo que tivesse uma pronúncia mais fácil e que representasse a banda. Então, enquanto eu lia uma biografia de Freud surgiu a palavra onírico e pareceu ser algo que representaria a banda por ser uma referência aos sonhos. Eu já havia percebido que as letras mencionavam muito os sonhos e a própria banda já havia se tornado um. Daí, foi só acrescentar o “n” para dar a identificação de marca e optamos pelo “a” no final. Algo como Metallica (risos).

cover_finalVicente – Vocês lançaram o EP “The End”. Como foi a gravação do mesmo, rolou tudo como esperavam?

Leles Gomes – Tivemos muitos contratempos (sem trocadilhos) na gravação do mesmo. Desde a saída de integrantes, a compra de novos equipamentos, até regravar o que já tínhamos gravado. O importante é que conseguimos um trabalho de qualidade considerando nossas condições e o que podemos investir. Gravamos algumas coisas no estúdio Monkey, outras no home studio do Sasha Garcia. Mantivemos contato e recebemos os materiais do Humberto e do Caçoilo à distância mesmo. Trabalhei os instrumentos virtuais e enviei tudo para o produtor Vincenzo Avallone na Itália. O mesmo mixou e masterizou as 3 músicas.

Vicente – E o retorno do pessoal e da mídia especializada, tem sido a que vocês esperavam?

Leles Gomes – Como analisarei abaixo a questão do cenário, estamos tendo mais retorno de fora do que daqui. Principalmente com relação à BH, o retorno da mídia é quase zero, mesmo se fazemos contato. Temos entrado na programação de rádios de outros países e estados, mas por aqui anda complicado. É meio triste ter que conseguir reconhecimento de fora para dentro, mas, de qualquer forma, estamos recebendo elogios daqueles que escutam e estes se mostram ansiosos pela continuidade do trabalho.

Vicente –  Como foram as participações especiais que pintaram no disco?

Leles Gomes – Em 2006 eu já havia entrado em contato com o Leandro Caçoilo e alguns outros músicos brasileiros pensando em fazer algo parecido com a proposta do Soulspell. As minhas condições na época não favoreceram a realização da ideia, mas o contato e o respeito desse grande vocalista ficaram. Compus a Before pensando já na voz do Humberto Sobrinho, um cara que acompanho seu trabalho desde 2004 (ganhei um CD do Glory Opera ao entrar na comunidade da banda no quase finado Orkut). Admiro muito seu trabalho e torço muito por ele. Pensamos inicialmente em investir nessas participações para ajudar na divulgação, mas como estamos sem vocalista, a estratégia é ter participações em todas as músicas do CD. Também contamos com nosso amigo Celso Alves da Allos participando nos backing vocals da Just can’t go on, juntamente com o Caçoilo. João Gabriel Torres, nosso antigo vocalista (que está sem tempo para se dedicar à banda), cantando com o Humberto na Before e, ainda, o solo do Sasha Garcia na mesma música.

Vicente – De quem foi a ideia e quem foi o responsável pela capa do disco, pois a mesma é fantástica.

Leles Gomes – Bem, a ideia foi minha e é uma viagem meio filosófica. Isso vai aparecer nas próximas letras. Já vi pessoas questionando a presença da Pietá, mas ali nada é literal; tudo é simbologia. Afinal, trata-se da Onnírica e nada melhor do que um pouco de surrealismo não!? Começamos pelo fim, pensando na proximidade desses dois conceitos e inspirados no símbolo ouroboros. O Caos é o início e o fim. As letras do EP são um tanto pessimistas, questionadoras sobre o futuro; a capa traz a Pietá, representando ali de certa forma a religião e a fé em um cenário de destruição um tanto embaçado, retratando um pesadelo, um futuro ameaçador. Temos também a presença, ali no canto direito, de uma borboleta negra em chamas. Esse pequeno detalhe é ainda mais complexo. A ideia é de um ser dialético; um ser que representa bem/mal, início/fim, luz/sombras, sonho/pesadelo. É a simbologia da borboleta traz em si, somando com a ideia da teoria do caos, e ainda, ideias da fênix e do pesadelo voador. Enfim, dá pra viajar nessa capa por muito tempo (risos). A mesma foi elaborada por Carlos Fides, artista que já trabalhou com nomes como Almah, Shaman, Edu Falaschi e Ceremonya.

Vicente – Em resumo, qual a mensagem que a banda tenta passar com as letras de “The End”?

Leles Gomes – Em “Just can’t go on” falamos da dificuldade em tocar a vida adiante sem as pessoas que amamos por perto. A letra de “Before” é a respeito dos problemas que assolam a humanidade como guerra e a fome e problematiza nossas ações diante disso. O que tenho feito para mudar isso? Será que antes do fim nós acordaremos?

Vicente – E o disco completo do Onnirica, existe alguma previsão? Quais são os próximos objetivos da banda?Leles

Leles Gomes – Como dito, é um trabalho complexo e demanda tempo. As músicas estão todas prontas e o que falta é realmente gravar. No momento estamos divulgando o EP em busca de apoio e algo que nos motive a prosseguir a gravação com um ritmo mais intenso. Estamos com uma proposta de distribuição digital de uma gravadora internacional e em breve daremos mais detalhes. Esperamos conseguir alguma proposta de distribuição do material físico também. Assim que as oportunidades forem surgindo retomaremos as gravações e pensamos em fazer um grande show de lançamento com aqueles que participarem no CD. Há também a possibilidade de uma turnê seguindo essa lógica.

Vicente – Quais são as suas principais influências?

Leles Gomes – Passamos desde Iron Maiden e Helloween até bandas como Dream Theater e Symphony X. No momento, posso afirmar que, da minha parte (já que compus a maioria das músicas), podem perceber bastante influência de Glory Opera, Allen & Lande e Angra; mas com certeza vocês encontrarão elementos que lembram Stratovarius e Rhapsody, por exemplo.

Vicente – Como você vê o cenário no nosso país nesse momento? Acredita que piorou ou houve uma pequena melhora na divulgação e espaço para shows?

Leles Gomes – Em geral, o metal é algo meio complicado. Isso quando se espera em fazer um trabalho profissional e viver disso. Para complicar, o mercado da música está vivendo uma fase meio instável, pois ainda não sabemos como lidar com as (im)possibilidades da internet. Um exemplo disso é que recebi a resposta do dono de uma gravadora japonesa afirmando que gostou do material, mas o mercado para o estilo está em crise. Quanto aos shows, especificamente de BH, sou um grande crítico e chego até a evitar entrar em detalhes. O fato é que a cena aqui anda resumida em bandas daqueles que tem capital para investir e produzir um grande show e colocar a própria banda na abertura. Fora isso, produtores te oferecem shows em que você tem que pagar para tocar ou vender os ingressos e é algo que realmente dá muita preguiça.

Vicente – Em poucas palavras, o que acha das seguintes bandas:

Avantasia: É um trabalho tão bom que parecia mentira ao ser anunciado. Material obrigatório para qualquer headbanger.

Hangar: Priester, Laguna, Martinez e Mello destroem fora, os vocalistas que passaram pela banda. TROYC e Infallible são dois álbuns que nos influenciam bastante. Indico o projeto Freakeys.

Soulspell: Temos aqui grandes nomes do metal nacional nesse projeto. Além da qualidade inquestionável penso que o projeto funciona como uma rede colaborativa e ajuda a abrir espaço, pois permite que os fãs de uma banda ou músico conheçam outras boas bandas do cenário nacional.

Helloween: Ouvimos muito esses caras e com certeza no mínimo 2 CD’s deles entrariam em um top 10 de pelo menos dois integrantes.

Angra: Como eles mesmos disseram, uma boa fase do grupo parece puxar o cenário nacional para uma boa fase. Esses caras abriram e continuam abrindo muitas portas para o Brasil lá fora. É uma das principais influências da Onnírica, sem dúvida.

Vicente –  Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho da Onnírica e para aqueles que gostariam de conhecer melhor seu som e apostam no Metal nacional.

Leles Gomes – Gostaria de agradecer aos nossos amigos pelo apoio. Muitos já tiveram contato com algumas composições e já sabem que ainda tem muita coisa boa por vir. Àqueles que já se consideram fãs, só temos a agradecer pelo apoio, carinho e retorno que temos recebido em nossa página no Facebook. Para aqueles que apostam no metal nacional o recado é que buscamos não só nos fortalecer, mas fortalecer a cena através dos convites que temos feito e ainda vamos fazer. Pensamos que a banda pode ser uma espécie de rede colaborativa do metal nacional, criando e fortalecendo vínculos. Só mais um detalhe: as duas músicas que mais gosto da Onnírica e que são composições muito particulares ainda não foram gravadas. Guardem os nomes: “Mystic Forest” e “Cabe ao Tempo”. Obrigado e até a próxima! Sintam-se à vontade em curtir nossa página e compartilhar as músicas do soundcloud. Bem vindos ao mundo dos sonhos!!!

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Leles Gomes

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