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Após um longo período com problemas com o computador, o que fez todas as matérias atrasarem consideravelmente, aqui estou de volta, e nas próximas entrevistas será dada uma atenção especial as bandas nacionais.

Dentre as grandes bandas que nosso país já produziu, o Imago Mortis pode ser considerada uma das “top”, em virtude de sua rica sonoridade, comprometimento e trajetória nesses 18 anos de existência. Com discos que ficaram marcados na história do Metal nacional, principalmente no Doom Metal, a Imagem da Morte consolidou seu nome em nosso cenário. Para falar sobre o passado, presente e futuro da banda, conversei com o vocalista Alex Voorhees, que em uma entrevista muito bacana, discorre sobre o processo de criação do novo disco, as dificuldades da banda durante todos esses anos e os problemas da nossa sempre complicada cena metálica, mas sem nunca perder a empolgação pela música. Confiram que realmente vale a pena…

 

Vicente – Já se vão quase 20 anos de banda. Como vocês avaliam a trajetória da banda e como foi o batismo da “Imagem da Morte”?

 

Alex Voorhees – Se pensarmos no pré Imago, quando a banda ainda se chamava “Thanatos”, você pode dizer que são 20 anos de atividade, porém o marco inicial foi a demo tape “Requiem” lançada em 1995. De qualquer maneira, a banda atingiu a “maioridade”. Posso dizer que passamos no teste do tempo e fico feliz de que mesmo com poucos lançamentos (3 cds oficiais, 1 demo e 1 participação no Hamlet) acho que continuamos uma banda relevante e acredito que ainda temos algo a oferecer.

Vicente – Após um longo hiato, vocês liberaram este ano a música “LSD Theme”. Por que a escolha dessa música e como tem sido a repercussão junto ao pessoal?

 

Alex Voorhees – Verdade, faziam 6 anos sem lançar algo novo, já estava na hora. Serviu para atiçar o público para o nosso vindouro lançamento e chamar um pouco os holofotes para nós, mandando um recado: estamos aqui! Essa música é minimalista, bem direta e curta e foi uma escolha acertada, pois ela funciona como uma música tema do próprio disco “LSD”, que é conceitual. Como se o disco fosse um filme, com sua trilha sonora e a canção fosse a música dos créditos! As pessoas adoraram, pois mostra o Imago Mortis muito próximo de suas raízes, é doom metal puro, mas com timbragem moderna!

Vicente – O novo disco estará pintando ainda este ano?

 Alex Voorhees – As músicas estão praticamente prontas, mas estão sofrendo um processo de reformulação pois o perfeccionismo permeia o Imago Mortis desde o início da banda e acredito que algumas músicas ainda podem soar melhores, por isso este atraso. Tive alguns problemas de ordem pessoal e isso, é claro, afeta diretamente as atividades relacionadas à banda. O Imago Mortis acaba sendo uma espécie de refúgio espiritual, uma busca por expressão e é claro que sentimentos negativos e pessoais acabam por desaguar nesse mar de emoções que é o nosso trabalho, porém certas circunstâncias nos fazem simplesmente não conseguir o foco necessário para isso. Agora tudo já passou e posso te garantir: The Long River Will Run Again😉

Vicente – O nome dele será “LSD” e, segundo informações da própria banda, trará um material bastante controverso. Por que vocês consideram o futuro disco desta forma, e qual seria a principal diferença dele para os trabalhos anteriores do Imago Mortis?

 

Alex Voorhees – Acredito que é por conta da temática e da estrutura de certas canções em si, que precisam corresponder ao tipo de material. O trabalho consegue ser complexo e simples ao mesmo tempo, não respeita muitos formatos e apresenta um Imago Mortis bem mais sensível e ao mesmo tempo bem mais intenso. Ele é mais extremo em todos os sentidos, não sei se os fãs irão aprovar, porém creio que os mais Die Hard, aqueles que mergulharem profundamente no conceito da obra, irão entender a nossa proposta. O disco tem como tema central o amor romântico, de frente com a morte (Eros e Thanatos) e, de certa forma, derrubamos este mito com base em pesquisas científicas como propõe Helen Fisher, em seu livro “Anatomia da Paixão”, em que ela comprova que a paixão nada mais é que uma cilada química criada pela natureza, nosso organismo a fim de driblar a morte e garantir a perpetuação de nossa espécie. Ou seja, somos o único animal que precisa ser enganado pela natureza para que possa gerar filhos. Controverso, mas vamos bem alem disso e mexemos com alguns tabus. O disco é conceitual em formato Opera Rock, ou seja, há uma historinha em sequência, mais próximo ao lançamento eu explico mais.

Vicente – A banda teve algumas mudanças de formação com o transcorrer do tempo. Como vêem a atual formação do Imago Mortis?

Alex Voorhees – Eu nem gosto de falar desse assunto, é muito difícil achar músicos realmente profissionais e que estejam dispostos a tudo para manter uma banda no topo, além de realmente vestir a camisa de um trabalho que não é exatamente o dele. O Imago tem uma proposta e cada músico precisa ser um escravo desta proposta. Oportunistas são rechaçados de imediato. A nossa sonoridade é como uma ditadura, pouca gente fecha com esse pensamento. Temos que obedecer ao que a música propõe, eu sou um escravo assumido da música. Atualmente eu me encontro como band leader assumidamente e não temos uma formação fixa, mas vamos trabalhar de forma com que o resultado final seja o melhor possível, principalmente no palco. Um músico para ser considerado “Imago” tem que passar no teste do tempo, ou seja, permanecer na banda por pelo menos 10 anos.
Eu ainda sonho em encontrar uma formação sólida, que se encontre constantemente como na época do Images, Vida e Transcendental, onde a banda era como uma família. Vamos recuperar essa mentalidade.

Vicente – A banda lançou discos que ficaram na história do Metal nacional. Conte-nos um pouco de como foram as gravações dos discos “Images From the Shady Gallery”, “Vida – The Play of Change” e “Transcendental”.

Alex Voorhees – O Images eu pouco posso falar, pois apenas participei como convidado, mas tenho relatos dos antigos integrantes relatando que foi um processo doloroso, onde os próprios chamam de “Longa Marcha Através do Deserto”. Eu lembro que o Imago sempre foi uma banda que passou a realidade para as músicas, o exemplo é a gravação da música “Empty Cradle”, em homenagem ao filho do ex-baterista Duarte, que faleceu dias após o nascimento. O clima de tristeza no estúdio emocionava e era possível ver os membros da banda aos prantos, abraçados, enquanto a Andrea Palmieri (Scars Souls) registrava o seu belíssimo vocal. O Vida é um disco que consegue ser ainda mais profundo e melancólico que o Images, mas as gravações foram em um clima completamente descontraído, estávamos muito felizes de estar trabalhando juntos, sempre tive uma excelente química musical com o baterista Delacroix e nos divertimos muito tanto nas sessões de gravação como em São Paulo, onde fizemos também, grandes amizades, que duram até hoje. As gravações em si fluíram muito bem e transcorreram sem nenhum tipo de problema. Foi ótimo gravar esse disco. O mesmo podemos dizer do Transcendental, o processo foi parecido, utilizamos a mesma receita que funcionou no Vida, o mesmo estúdio (Creative Estudio, em SP) e alguns dos técnicos. A diferença também, do Transcendental para o Vida foi o processo cuidadoso de pré-produção onde já experimentamos bastantes timbres e riffs e chegamos às sessões de gravação sabendo exatamente o que queríamos. Acredito que o pensamento atual seja mais ou menos o mesmo apesar que a produção do LSD esteja mais concentrada nas minhas próprias mãos.

Vicente – Falando em história, “Vida – The Play of Change”, entrou na lista da Roadie Crew como um dos 60 maiores discos do Metal nacional. Como foi receber o reconhecimento deste, sem dúvida, grande trabalho?15826

 

Alex Voorhees – Foi um motivo de muita alegria, isso foi comemorado entre todos os membros e ex-membros da banda. Fiquei muito feliz e honrado, afinal de contas, nós entramos para a história do metal nacional. É legal ver a sua obra continuar a ser relevante mesmo após mais de 10 de seu lançamento! Achei digno!

Vicente – O Doom nunca deixou de ser um gênero maldito no Brasil, em detrimento de outros estilos. Qual seria o principal motivo, e acredita que boas idéias, como a União Doom Metal BR, podem alterar esse panorama? 

 

Alex Voorhees – Não acho errado que o doom seja um gênero maldito, sim com certeza é difícil de escutar, as músicas são mais melancólicas e gélidas. O nosso país é praticamente tropical e o povo é mais animado, no geral, isso é da natureza do brasileiro, portanto, gêneros mais rápidos e agressivos tem maior aceitação. Porém até que existem muitos adeptos do doom metal, principalmente na região sul do país e Minas. A União Doom Metal BR com certeza não só alterou como foi o fator preponderante do ressurgimento do gênero, que está acontecendo agora. Nos anos 90 houve uma boa quantidade de bons lançamentos, isso ajudou a impulsionar o doom como um todo por aqui e acredito que agora esteja voltando com mais força. Há uma imensa gama de novos fãs de metal que se identificam com a misantropia e a falta de esperança, as melodias lúgubres e os andamentos mais lentos, com uso de belos riffs, típicos do Doom Metal.

Vicente – Como avalia o cenário para as bandas nacionais nesse momento? Há mais espaço para divulgação e realização de shows, ou não houve nenhuma mudança substancial nesse sentido?

 

Alex Voorhees – Existem muitas bandas, porém algumas estão começando e é muito cedo para dar uma opinião concreta sobre elas, espero o tempo para maturar cada uma, além da estrada, mas foi interessante ver bandas mais clássicas daqui como o Mythological Cold Towers com um ótimo lançamento e viajando pro exterior. Também tem rolado alguns eventos exclusivos, voltados para o doom, como o Eclipse Doom Festival, esse tipo de iniciativa ajuda a dignificar o estilo, chamando a atenção e dando maior respaldo à cena no geral. Das bandas novas, gosto da ApocalyptichaoS, eu achei o som com uma ótima qualidade, desculpe a sinceridade, pouco comum para os lançamentos aqui neste país. HellLight também é uma banda bem interessante, é lógico e há muitas outras para serem citadas. Mesmo assim, eu acredito sinceramente que a cena precisa melhorar, mas essas bem sucedidas iniciativas recentes só dão mais energia pra galera ensaiar e continuar na estrada, aperfeiçoando assim, a qualidade musical, técnica e das produções do próprio material.

Vicente – Em poucas palavras, o que acham das seguintes bandas:

 

Pink Floyd: Clássica de Todos os Tempos!

My Dying Bride: Mestres Ingleses!

Carcass: Cirurgiões do tech death.

Opeth: Progressivo renovado.

Candlemass: Mestres Suecos!

Vicente – Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho do Imago Mortis e para aqueles que gostariam de conhecer melhor seu som e apostam no Metal nacional.

 

Alex Voorhees – A melhor coisa que eu poderia dizer é: procurem escutar o nosso trabalho e das bandas nacionais em geral, vamos apoiar, vamos aos shows de metal nacional e vamos incentivar as bandas, pois o momento atual é muito difícil e só com uma maior participação e integração maior entre bandas e público, imprensa, produtores, mídia e todos os envolvidos com música pesada por aqui por essas paragens, que vem sendo a Meca dos Gringos ultimamente. É preciso também perceber que existem bandas sérias e de alta qualidade por aqui. E um recado às bandas: não desistam, ensaiem, se dediquem, invistam em produção de alto nível, não adianta, você está concorrendo, sim concorrendo, com as bandas gringas então você precisa se profissionalizar, não dá mais para ser amador e brincar de tocar. Não aceitem qualquer equipamento, tenham um mínimo de dignidade mesmo se estiverem começando e peçam ajuda às bandas mais velhas, pois a galera sempre estende a mão. A cena está se unindo. Vamos cooperar. E um abração especial para você, leitor e que leu esta entrevista, com certeza és uma pessoa que faz a diferença aqui para o nosso metal!

Let the long river run!
Up Imagos’s!

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