No inicio da década de 80 o rock e metal na Suécia ainda não tinha todo o potencial dos dias atuais, onde principalmente o Hard Rock e o Death Metal melódico conquistaram seu espaço no mundo inteiro. E foi nesse cenário ainda pouco divulgado que surgiu o Dark Illusion, que parecia trilhar um belo caminho na música, mas que nos tradicionais percalços na trajetória, acabou por encerrar suas atividades em 85, retornando alguns anos atrás, mais como um projeto que propriamente uma banda. Nessa entrevista com o guitarrista Tomas Hultqvist, ele conta mais sobre todas as fases do Dark Illusion, sendo bem realista quando ao futuro, mas sem perder a paixão pela música.

Vicente – Primeiramente, como você vê a trajetória da banda depois de todos esses anos?

Tomas Hultqvist – Muito honestamente, é uma “trajetória” que nunca pegou velocidade. No inicio imaginei que o Dark Illusion teria sido perfeito, mas não deu certo para nós. “Miss Fortune” não sorriu em nossa direção, por assim dizer. E é assim que tem sido desde então. Embora nos últimos anos nós conseguimos espremer um par de bons álbuns. E esse é o nosso maior sucesso. Mas o único sucesso que tivemos até agora.

Vicente – A primeira vida do Dark Illusion foi entre 82-85, e novamente a partir de 2003. O que aconteceu em todos esses anos?

Tomas Hultqvist – Bem, a “primeira vida”, foi a única vida. O que aconteceu a partir de 2003 e nos anos seguintes poderia ser mais bem descrito como um “projeto”. Embora, quando você olha para o nosso álbum parece que há uma “banda” real no registro. Que não é a verdade. Os membros da banda, ou titulares do projeto, se assim você preferir, são eu mesmo e Niklas Tengblad. Embora Thomas Vikström (vocalista de um sem fim de bandas, como Therion e Candlemass) sempre foi muito positivo sobre trabalhar conosco no caso de que algo diferente pudesse ocorrer, como a gravação de um vídeo ou um show (que não aconteceu) ou uma gravação de um novo álbum. Que, atualmente, é muito incerto se vai se tornar uma realidade. E as razões para isso são:   falta de tempo, falta de dinheiro e a mudança do mercado musical, que torna muito difícil para quem está disposto a investir em um projeto como o Dark Illusion. Voltando à sua pergunta: Nos anos entre 1985 e 2003, nada realmente aconteceu. Houve alguma atividade musical feito por mim, mas nada registrado. Ainda assim, eu estava sempre a tocar guitarra e escrever novas músicas, tentando aparecer com algo novo. Mas nenhuma atividade em banda durante este período negro.

Vicente – Você lançou em 2009 “Where the Eagles Fly”. Como foi a gravação deste álbum?

Tomas Hultqvist – Tudo correu muito bem. Apesar de ter sido um trabalho muito rápido. Tivemos muito pouco tempo no estúdio, então tudo foi feito em um take, além do fato que baterista e o vocalista nunca tinham ouvido nenhuma das músicas antes do dia da gravação. (Uma maneira muito estranha de trabalhar juntos no estúdio) Mas com tudo isso levado em consideração acho que fizemos um bom trabalho com as músicas. Muito graças ao nosso técnico / engenheiro Chris Laney, que, com sua longa experiência em trabalhar no estúdio, ficamos com a certeza de que tudo foi feito da maneira mais eficiente. Sua experiência nos ajudou a manter o foco. Ele também é um músico muito talentoso. Assim como os outros caras. Ainda assim, há sempre coisas aqui e ali, pequenos erros e assim por diante em certas músicas que você gostaria de ter sido dada uma segunda chance. Mas toda a mixagem foi feita em equipamento analógico, por isso não era possível mudar qualquer coisa uma vez que a mixagem foi finalizada. Mas eu amo o som analógico do álbum. Eu gosto do som mais do que o do nosso primeiro disco. Apesar de muitas pessoas preferirem o primeiro registro porque é, talvez, um pouco mais pesado. Liricamente eu estou muito mais feliz com “Where the Eagles Fly” mais a sequencia de canções.  Eu nunca estive feliz com “Beyond the Shadows”, havia canções nele que não deveriam ter estado lá, que ferem a banda (ou projeto). Faz 3 anos agora, desde que “Where the Eagles Fly” saiu. E os três anos se passaram muito rapidamente. E nenhum trabalho gravado por nós tem visto a luz do dia desde então.

Vicente – E a reação dos fãs foi a que você esperava?

Tomas Hultqvist – Eu estava esperando uma resposta melhor. Mas eu tinha um sentimento em meu coração que não seria tão fácil na segunda vez. O primeiro disco vendeu muito bem em nossos termos. O segundo obviamente não, a venda de discos caiu em geral, mas que não era a única explicação. Nós cometemos alguns erros quando escolhemos músicas para gravar no álbum. Algumas músicas que podem ser descritas como “bregas” acabaram na lista a serem gravadas. E por isso eu sou o único responsável. Essas músicas fizeram todo o álbum ficar mal em um determinado sentido. Inicialmente, estava indo para gravar um álbum repleto de faixas pesadas, mas aquelas pequenas faixas comerciais soam perdidas, e, infelizmente, você nunca pode construir uma base de fãs dessa forma. É como um suicídio comercial. Como se estivéssemos apontando para o mesmo truque que fez o Def Leppard. Ou Bon Jovi. Isso já foi feito antes e nunca funcionou. Quão estúpidos poderíamos chegar?   Então, por causa do revés comercial com “Where the Eagles Fly” (embora a maioria das músicas serem muito boas na minha opinião), tem sido muito difícil colocar o Dark Illusion em ação novamente. Eu acho que, tanto eu como Niklas Tengblad ficamos queimados por causa disso. Não estamos mortos ainda. Então, ainda há uma possibilidade de aparecerem mais coisas.

Vicente – Como é a sua composição normalmente? O que vem primeiro, a letra ou a música?

Tomas Hultqvist – Eu escrevo todas as músicas para este projeto. E  sou muito conduzido pelos riffs. Eu sempre começo com um grande riff e sigo daí em diante. Em algumas músicas que eu comecei a escrever um refrão mais cativante. Às vezes, só aparece na minha cabeça, geralmente quando eu estou dirigindo um carro. E, em seguida, adiciono o restante da estrutura da música depois disso. Assim, em geral, eu diria que, em primeiro lugar eu preciso de um monte de riffs legais e um titulo bacana. A letra completa é sempre feita após isso. Algumas vezes apenas antes da gravação. Muitas vezes envolvendo um monte de estresse. Tentando obter cada palavra maldita. A letra é, de longe, a parte mais difícil, e exige mais trabalho. A música geralmente vem à vida muito fácil (mas nem sempre) As músicas “My heart cries out” e “Pay the price” levaram um monte de tempo e esforço para serem escritas.

Vicente – Qual seria a formação ideal do Dark Illusion para você?

Tomas Hultqvist – No momento não temos uma formação, essa é a verdade. Já se passaram três anos desde que terminamos de gravar “Where the Eagles Fly”, e nenhum trabalho foi realizado desde então. Eu não tenho nenhuma idéia do que os outros caras estão fazendo, ou se eles estariam dispostos ou disponíveis para trabalharmos juntos novamente. E quando eu digo “nós” eu quero dizer Eu e Niklas Tengblad. Mas se decidirmos gravar novamente com o Dark Illusion, ambos estamos convencidos de que vamos precisar de um cantor muito bom para o projeto. Claro, Vikström será sempre a nossa primeira escolha, mas se ele não estiver disponível teremos que chamar outro cara. Mas ele vai ter que ser tão bom quanto Vikström. E não é fácil de encontrar vocalistas desse calibre aqui na Suécia. Só posso pensar em dois ou três caras assim. Talvez quatro. E eu não tenho idéia se qualquer um deles estará disposto a participar. Vamos ver o que acontece. Encontrar um baterista e um baixista não é muito difícil. Estamos falando de músicos de estúdio dai. Isso é o que nós vamos estar procurando. Sabemos de alguns.

Vicente – Quais seriam suas próximas metas então?

Tomas Hultqvist – Eu tenho idéias o suficiente para outro álbum. Idéias realmente boas em minha opinião. Mas nada finalizado.

Se realizarmos as gravações provavelmente vamos colocá-las como downloads. CDs não vendem muito nos dias atuais. Eles parecem estar fora de moda. Na verdade o vinil está tornando-se popular novamente. Provavelmente muito em breve ultrapassará o CD como o formato mais vendido. Assim, em um cenário onde tivermos  novas músicas em nossas mãos, provavelmente vamos lançar alguns Cds ou vinis para enviar para as estações de rádio, revistas, etc. Mas sem esperança em vender grandes quantidades deles. Esses dias estão, definitivamente, mortos. Então, como você provavelmente pode entender, eu não estou esperando ganhar dinheiro em um novo projeto musical. Seria muito dinheiro gasto e com mínimo retorno. Mas eu como artista ainda me sinto feliz com isso. Enquanto o pessoal continuar a ouvir a música, eu vou ficar bem.   Assim, o próximo objetivo, ou plano, se assim posso dizer, seria começar a trabalhar em algumas coisas novas, trazer alguns músicos talentosos e partir para o estúdio e colocá-la na fita. Isso seria muito divertido. Eu não tenho feito isso há um bom tempo já. Minha mentalidade agora é que eu quero fazer um disco quase “Speed Metal”.

Vicente – Quando você começou na música, quais foram as suas maiores influências, que inspiraram você?

Tomas Hultqvist – Primeiras influências incluem The Beatles, passando por Mott the Hoope e Bad Company. A “Glam Era” na década de 70. Kiss e The Sweet eram favoritos óbvios. Então eu comecei a ouvir o álbum do UFO. E isso foi realmente uma revelação. Michael   Schenker definiu o padrão de como um bom guitarrista pode tocar. E ele ainda é um dos meus favoritos. E, juntamente com o grande vocal do Phil Mogg e letras inteligentes fez-se uma equipe fantástica. UFO, Scorpions, Rush e Judas Priest são os meus favoritos a partir desta época. Então o Punk veio e teve um grande impacto em mim também. Em seguida o novo Metal: Iron Maiden, Saxon, Dio, Accept, Ozzy Osbourne… Você consegue imaginar tudo…

Vicente – Nos últimos anos, surgiram na Suécia uma grande quantidade de bandas de Hard/Heavy Rock. O que você acha sobre isso?

Tomas Hultqvist – Eu acho que é ótimo. Suécia realmente marcou seu lugar nos últimos anos. Hammerfall e Dream Evil são as precursoras óbvias. Estas bandas são realmente uma inspiração para todos nós. Eu realmente gosto de seus sons de guitarra. Especialmente do Dream Evil. Mas Hammerfall é a maior delas. E é compreensível. Eles foram os primeiros a seguir esta “nova direção” do metal.

Vicente – O que você conhece do Rock e Metal no Brasil?

Tomas Hultqvist – Eu só conheço o álbum do Sepultura, Chaos AD. Não é meu tipo favorito de música, mas o álbum realmente mudou o curso do metal  para sempre. Eles levaram o som do Metallica um passo adiante com esse disco. Um amigo meu ouve o tempo todo. Este foi provavelmente um dos melhores álbuns lançados naquele ano. Em todo o mundo. Provavelmente, um dos registros mais importantes da época. Refuse / Resist é uma grande canção. Esses caras são HEAVY!

Vicente – Em poucas palavras, o que você pensa sobre essas bandas:

Dio: banda Essencial. Ronnie é um dos vocalistas mais influentes de todos os tempos. E um momento muito trágico também. Seus melhores discos com o grupo Dio são os quatro primeiros álbuns na minha opinião. Depois disso, a qualidade da composição decaiu. Ele estava bem com os caras do Sabbath. O “Dehumanizer” foi um dos melhores esforços posteriores de Ronnie. Então, é claro, “Heaven & Hell” e “Mob Rules” são clássicos eternos. Eles soam tão bons hoje como a 30 anos. Clássicos. Ronnie era também um cara muito legal, que viveu por sua música e para seus fãs. Ninguém nunca vai tomar o seu lugar.

Stratovarius: Eu sei que eles são da Finlândia, mas eles têm um tecladista sueco. O nome sugere que eles têm uma sonoridade clássica, sendo o Stratovarius uma das marcas mais exclusivas de violinos. Mas eu não posso lembrar se eu ouvi alguma de suas músicas. Então, tenho de confessar não estar familiarizado com o Stratovarius.

HEAT: Um grupo de suecos. Eu vi quando eles apareceram na eliminatória sueca para o Eurovision Song Contest. Sua canção “Thousand Miles” tornou-se um grande sucesso e desde aquele momento eles tocaram muito nas rádios aqui da Suécia. Então seu vocalista saiu, e eu não sei o que aconteceu com eles. Mas eu acho que eles ainda estão tocando. Mas não tenho ouvido falar muito deles ultimamente, então é realmente difícil para eu tecer um veredicto sobre eles.

Saxon: Banda clássica, com um vocalista clássico: Biff Byford. Eles me inspiraram muito. Tanto musicalmente quanto nas letras. Eu curto tanto a fase antiga como a nova do Saxon.   Mesmo o disco “Destiny” tem alguns momentos bons, embora seja provavelmente o mais fraco de todos. Mas os seus últimos lançamentos não tenho encontrado tempo para ouvir. Mas o que eu ouvi gostei. “Batallions of Steel” é uma grande canção. Uma das melhores já criadas. O ponto negativo com o Saxon é que talvez eles estejam produzindo em demasia. São muitos álbuns deles em um espaço muito curto de tempo. Algumas vezes eu gostaria que eles pudessem investir mais na qualidade que na quantidade. Porque todos os anos há um álbum novo do Saxon. E eu não tenho tempo para ouvir todos eles. Último disco que eu realmente escutei a fundo foi “Unleash the Beast”. E é um grande disco. Um dos melhores.

Iron Maiden: Uma das minhas bandas favoritas também. Eles nunca saem do estilo. São quase como uma instituição nos dias de hoje. Quando o Iron Maiden chega à cidade, todo mundo vai para o show. Eu sendo a única exceção talvez (eu os vi muitas vezes já). Eles são novamente uma das quatro maiores bandas do mundo. Os outros três: Kiss, Metallica e AC / DC. Possuo seu catálogo inteiro. Com a exceção dos álbuns mais recentes, que eu não tenho encontrado tempo para ouvir. Mas o Iron Maiden é sempre o Iron Maiden. E eu nunca me canso deles. Eles têm um grande número de canções clássicas.

Vicente – Por fim, deixe uma mensagem para todos os brasileiros que conhecem ou queriam saber muito mais sobre a música do Dark Illusion.

Tomas Hultqvist – Olá a todos os brasileiros que possivelmente estão lendo isso. Eu espero que esteja tudo indo muito bem. Sei que possuem um clima quente e adorável. Se vocês quiserem conhecer o Dark Illusion eu sugiro que vocês procurem o nosso primeiro disco “Beyond the Shadows”. As músicas top nesse álbum são “Night Knight”, “Child of the Night” e “Warlord of the Night”. Cada música com a palavra “night” contida no título serve (risos). No segundo registro “Where the Eagles Fly” Eu sugiro que vocês procurem a palavra “survive” no título. Então vocês tem “Only the strong will survive” e “Land of street survivor”. Divirtam-se!