Apesar de ainda sofrer um pouco com o preconceito, a verdade é que há cada vez mais bandas fazendo um som extremo, mas com ideologia cristã. Como é o caso da, podemos assim afirmar, veterana Antidemon, com seus quase 20 anos de existência, talvez um dos grandes exemplos disso. Colhendo os frutos de uma carreira onde a música e a integridade sempre foram colocadas acima de tudo, a banda lançou este ano seu quarto disco, e vem realizando shows no exterior e colecionando ótimas criticas lá fora, demonstrando que, quando a banda tem, e acredita na sua qualidade, e batalha pelos seus ideais, pode colher os resultados que anseia. Confiram o que Batista, vocalista e baixista da Antidemon têm a dizer sobre a carreira da banda…

 

Vicente – Antes de tudo, vocês estão preparando-se para iniciar uma nova turnê mundial, correto?

Batista – Sim. Com o lançamento de nosso quarto álbum se inicia uma nova turnê mundial! Com o outro disco tocamos em 04 continentes e 28 países. Queremos superar isso com esse novo trabalho. Em Outubro fazemos uma pequena turnê pela Bolívia onde tocamos pela quarta vez nesse país e visitaremos cidades como La Paz, Cochabamba, Sucre e a uma cidade muita alta chamada “Oruro”… Já estou com falta de ar… 4.060 de altitude ao nível do mar e muito frio… Da ultima vez, em 2009, foram 15 graus negativos.

Vicente – E já se vão quase 20 anos de carreira, um longo tempo, ainda mais se formos ver as dificuldades que as bandas nacionais enfrentam durante toda sua existência. Qual o balanço que fazem da carreira, e quais os próximos objetivos do Antidemon?

Batista – Realmente não é fácil se manter na ativa por todo esse tempo, pois as dificuldades e oposições aparecem diariamente, porém se o objetivo da banda é maior que tudo isso, nada pode parar o trampo. Pois respiramos e vivemos isso 24 horas por dia, sem exagero algum, e nem se quisermos conseguimos parar. Nessas quase duas décadas são incontáveis as conquistas. Obviamente o que mais aparece para todos é o numero de discos lançados, shows importantes, etc. Mas para mim é muito marcante a amizade estabelecida com pessoas do mundo todo por onde passamos. Isso é algo que vale muito em um balanço de tudo o que aconteceu, pois isso não tem preço. Pessoas que nos ajudaram e outras que pudemos ajudar com nosso som, nossa mensagem de esperança e fé. Culturas diferentes e idiomas impossíveis foram vencidos através do metal, onde independente da cultura ou do idioma tudo se entende a cada riff de guitarra e cada blast de bateria. Para o futuro queremos continuar acreditando nesse trabalho e continuar cruzando fronteiras. Em 2013 queremos fazer nossa primeira turnê pelos Estados Unidos e a quinta turnê pela Europa e tocar em países que ainda não tocamos, como a Grécia (Casa do Rotting Christ) e a Macedônia, Bulgária, Romênia, Hungria e outros vizinhos desse leste europeu onde a cena é maravilhosa e obviamente voltar aos muitos que já visitamos e temos muito apoio. Também temos convites para estar na Austrália e Nova Zelândia em 2014 e isso realmente será muito bom. 

Vicente – Vocês acabam de lançar seu quarto disco completo de estúdio, “Apocalypsenow”. Como foi a gravação desse álbum?

Batista – Esse quarto disco foi uma surpresa para nós! Estávamos compondo novas músicas em meio aos muitos compromissos de shows e recebemos o convite de Steve Rowe da lendária banda Mortification, para fazer parte do time de sua gravadora “Rowe Productions” da Austrália. Foi realmente incrível isso que aconteceu, pois ele valorizou muito o nosso trabalho e nos deu condições de procurar fazer uma boa gravação. O estúdio escolhido foi o “DaTribo” com o renomado produtor  “Luiz Ricardo Ciero” que também produzira bandas como Krisiun, Ratos de Porão, Torture Squad, Claustrofobia entre muitas outras. Foram mais de trinta dias intensos entre os meses de abril e maio de 2012 e assim nasceu o disco “APOCALPYSENOW”, o quarto álbum da banda Antidemon. Com onze faixas gravadas a banda tem que deixar o trabalho nas mãos de seu produtor para a mixagem e masterização e envio do CD Master para Austrália, onde a “Rowe Productions” se encarregaria de prensar o disco e distribuí-lo mundialmente.

Enquanto o disco estava sendo mixado embarcamos para o México, para cumprir uma turnê por esse país e por quase toda a América Central, alcançando a Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica. O Ciero então ia enviando pra nós por e-mail as provas das musicas mixadas e de como estava ficando o disco e íamos aprovando uma a uma. Um pouco conturbado, mas não tínhamos o que fazer. Como já disse fomos pegos de surpresa para gravar esse novo disco e essa turnê já estava fechada e divulgada.

Vicente – E o retorno do pessoal, mesmo neste curto período, tem sido a imaginada por vocês?

Batista – Realmente o retorno tem sido muito grande e surpreendente. É a primeira vez que temos alguém se encarregando por toda a distribuição e divulgação como a Rowe Productions, ate então o Antidemon sempre fez tudo independente. Isso faz com que nosso nome e trabalho cheguem aonde não temos nem ideia. Essa semana recebi um e-mail de um locutor de Metal de uma Rádio no Alaska (EUA) e dizia que estava tocando direto o novo disco do Antidemon e os ouvintes estavam adorando e não paravam de pedir pelo “Apocalypsenow”. Sem falar nas inúmeras entrevistas que estamos respondendo dia a dia de países do outro lado do planeta. Também tenho me surpreendido pelos inúmeros comentários em Revistas e fanzines do mundo todo, e sempre com muita admiração pelo disco, onde a maioria diz que o novo álbum supera os anteriores.

Vicente – Qual acredita ser a principal diferença entre “Apocalypsenow” para os outros discos do Antidemon?

Batista – Talvez os riffs estejam com uma pegada mais “Death Metal” que os outros, porém algumas características básicas estão mantidas e facilmente se percebe que se trata do Antidemon. Em minha opinião a gravação analógica que fizemos deu uma cara mais orgânica que os outros discos e o faz soar diferente, com a presença de elementos sonoros indispensáveis para quem aprecia o estilo.

Também o fato de estarmos lançando pela Rowe Productions, causa uma expectativa diferente naqueles que nos acompanham há anos.

Vicente – Neste disco em questão, qual a mensagem que a banda quis passar nas letras?

Batista – O Disco retrata o Apocalipse e os últimos dias desse mundo. Retrata o caos que o ser humano armou para si mesmo. Retrata a destruição e decadência pelo fato da criatura ignorar o seu criador. Como o nome mesmo diz: Apocalipse já chegou… Já estamos vivendo isso!

Vicente – Falando nisso, a banda já enfrentou algum tipo de resistência na cena, já que se trata de uma banda de ideologia cristã, mas cujo som é um grande Death/Grindcore?

Batista – O ser humano sempre teve muitas dificuldades em conviver com as diferenças. Na Cena somos diferentes por termos uma fé dentro de nós. Somos discriminados por alguns que dizem que o metal não é para expressar religião. Porém o que expressamos não é religião, são sentimentos. Afinal a música, seja ela o estilo que for, sempre foi para se expressar os sentimentos, seja ele qual for… Se você tem ódio em seu coração vai expressar ódio em sua música… Se você está vivendo um tempo de tristeza vai expressar tristeza, e assim por diante. Nós expressamos o que sentimos. Muitos expressam o que vende mais ou o que agrada mais e não o que sentem. Prefiro ser autêntico e expressar o que realmente mudou minha vida e me dá força para viver e sonhar, que é a minha fé em Deus. Eu acredito que cada um tem a liberdade de falar o que acredita em seu som. Não sou contra o “Black Metal” ou qualquer vertente do estilo. Se eles estão sendo autênticos no que dizem é o que importa.  Assim como músicas que falam dos mais variados assuntos. Fale do que você acredita e eu falo do que eu acredito. Afinal o mundo já cheio de tantas mentiras. Que ao menos o metal seja para passar o verdadeiro sentimento daqueles que o fazem. Não é matando aqueles que pensam diferente de mim, que vou fazer com que vejam minha verdade. É necessário que estejamos todos vivos e dia a dia, possamos reconhecer o melhor a se viver e a se seguir naturalmente. De nossa parte subimos no palco com qualquer banda que esteja fazendo metal, independente do que fala suas letras. As pessoas não devem ser obrigadas a ter uma só opção de vida, de crença ou de descrença. O próprio Criador nos criou com essa liberdade. Ele nos criou com o livre arbítrio e desde o principio o ser humano optou pelo que queria, mesmo que fosse diferente do que Deus queria. Se alguém quer matar ou exterminar o que é diferente, talvez lhe falte conhecimento. Aí você pode argumentar, mas Deus matou aqueles que não queriam lhe obedecer!  Definitivamente não é isso. Deus apenas sinalizou: Você tem opções… De vida ou de morte. Tem o alimento e tem o veneno. A escolha sempre foi nossa. Ou seria melhor ele ter criado só o que é bom… Ou só o que é mal… É claro que não! Pois assim seríamos robôs programados e sem opção. E é isso que as pessoas querem fazer com as outras quando não admitem que alguém pense diferente. O Antidemon vai continuar sempre falando do que pensa, não como uma imposição, mas como uma opção.

Vicente – Muito se fala sobre os diversos problemas da cena Metal no Brasil. Qual avaliação que vocês fazem da mesma, visto o longo tempo que a banda já tem de estrada? Acreditam que ela melhorou, piorou ou está estagnada?

Batista – Eu sou naturalmente otimista sempre, porém tocando em regiões mais distantes do pólo central do país, não posso ignorar o que tenho visto em todo o Nordeste e Norte do Pais, onde a cena tem crescido e nos levado com frequência. Temos tocado em capitais como Macapá, Porto Velho, Rio Branco e já por duas vezes em Boa Vista-Roraima, onde da ultima vez tocamos em um festival incrível ao lado de Glory Opera e Korzus. Não podemos deixar de ver muitas crianças andando pela rua com camisetas do Iron Maiden e Slayer. Não podemos deixar de ver e sentir a paixão de milhares de bangers por esse país… E, ao mesmo tempo, visitando outros países da América Latina, sempre temos a certeza que estamos crescendo. É claro que não podemos nos comparar a Europa, por exemplo, onde uma porcentagem enorme de pessoas tem o metal como sua preferência musical e em países como a Noruega onde se vê noticias do Dimmu Borgir no Jornal do canal aberto de televisão.

Vicente – Quais são as suas maiores influências?

Batista – Minha Fé em Deus.

Vicente – Em poucas palavras, o que acham das seguintes bandas:

Mortification: Um exemplo.

Eterna: Qualidade no que fazem.

Tourniquet: Bom para os ouvidos.

Napalm Death: Eternos Mestres.

Venom: O respeito. O início pra muita gente que conheço.

Vicente – Uma mensagem para os fãs e amigos que curtem o trabalho do Antidemon e para aqueles que gostariam de conhecer melhor seu som e apostam no Metal nacional.

Batista – Eu agradeço a todos que acompanharam nossa entrevista a “Witheverytearadream” que tem sido uma porta voz verdadeira do Metal. E a oportunidade de nos fazer conhecidos a novas pessoas. Como mencionei na Entrevista, o que mais prezamos é a amizade que conquistamos através do Antidemon, então, por favor… Se sinta em liberdade para nos escrever e nos conhecer melhor. Também deixo meu convite para estar em nossas apresentações em algum lugar por esse mundo afora. Um abraço!

www.antidemon.net

E-mail: antidemonband@yahoo.com.br